CRÔNICA POLÍTICA- POR RAFAEL CARAPAJÓ

Temer e o Rinoceronte

A Democracia brasileira sofreu novo solavanco quando o Presidente Michel Temer, quebrando a tradição de 19 anos, resolveu nomear um general para o cargo de Ministro da Defesa, assumindo o comando de uma das pastas mas importantes.

            Atolado em denúncias de corrupção e diante de uma profunda crise econômica, o governo resolve apostar suas últimas fichas no combate à violência, apesar do asqueroso oportunismo eleitoral. Foi a resposta que resolveu dar para o estado de insatisfação social, ocasionado por sua culpa exclusiva. Algumas das principais medidas do governo Temer, tais como a “PEC da morte”, que congelou gastos sociais por vinte anos, o ataque a CLT e o consequente aumento no desemprego, a estagnação de Estados e Municípios, contribuíram para o desamparo social e aumento na escalada da violência.

            É assustador o fato de que a Justiça Militar ter competência para julgar os crimes cometidos por militares contra civis, evitando que possíveis excessos sejam julgados pelo Tribunal do Júri. Além dessa suposta “Licence to Kill“, houve a polêmica dos mandados coletivos de “busca e apreensão” e de prisão, e a declaração do Comandante do Exército exigindo “garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade”. Em suma, a convocação do Exército para sair dos quartéis e ocupar as favelas constitui uma das medidas mais brutais desse governo, usando o controle e a repressão para resolver questões de ordem social.

            A derrocada da Democracia, bem na vista de todos e sem a oposição de importantes setores da sociedade parece ter saído do “Teatro do Absurdo”, espécie de gênero teatral criado na segunda metade do século XX, mais especificamente no texto “O Rinoceronte”, do romeno Eugène Ionesco. Na história, uma pacata cidade é surpreendida com a passagem repentina de um rinoceronte. Enquanto os moradores ficam discutindo sobre sua origem, este vai se proliferando incontrolavelmente até que os cidadãos vão se transformando em rinocerontes.

            Os protagonistas promovem diálogos inúteis sobre o ocorrido. Enquanto que uns questionam se as autoridades deveriam ou não permitir a passagem desses animais, se eram unicórnios ou bicórnios, se eram provenientes da África ou Ásia, outros  preferiram não se importar ou acreditar numa espécie de delírio coletivo. O pânico se espalha e um dos personagens afirma estar doente e que está sendo perseguido por um rinoceronte e, para resolver essa questão, chama os bombeiros para ajudar. Entretanto, descobrem que os moradores estavam, na verdade, se transformando, ou seja, estavam sofrendo lentamente o processo de metamorfose em rinocerontes, provocada por uma doença chamada de rinocerontite.

            Mas, um dos principais protagonistas, Béringer, percebe o perigo na medida em que enxerga a transformação de todos os cidadãos da cidade, sem resistência, e sua impotência diante dela. Ele é um homem comum e assume o risco do enfrentamento: “Contra todo o mundo, eu me defenderei. Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim! Não me rendo!”

            O texto é uma metáfora da ascensão do Estado Totalitário e os rinocerontes parecem estar vagando pelas savanas mentais de boa parte dos cidadãos deste país. Uma existência desprovida de significado pode dar lugar a um mundo sem propósito e carente de soluções, facilitando o assentamento de qualquer doutrina. A presença do egoísmo e da passividade reúnem as condições favoráveis para um surto epidemiológico capaz de transformar homens em rinocerontes. As conversas inúteis, as divagações superficiais, ausência de fundamentação histórica e generalizações preconceituosas são sintomas de que a doença está se alastrando e que os homens estão se transformando em bestas.

            O conformismo cria condições de submissão a uma ordem absurda, transformando os homens em animais. O comodismo e a inércia também criam indivíduos que seguem passivamente a manada, mansos e anônimos, renunciando ao essencial: a capacidade de pensar.

            Impossível não imaginar o texto como uma sátira do nazismo. Ionesco foi um sobrevivente da Segunda Guerra Mundial e a Romênia dos anos 30 deixou forte impressão, uma vez que vários de seus colegas aderiram ao movimento totalitarista durante a ocupação alemã.  Ele pretendia mostrar que os vitimados pela propaganda nazista foram transformados em animais chifrudos, justamente aquelas pessoas consideradas normais.

            No Brasil, assistimos prostrados as mudanças que vêm acontecendo, aceitando passivamente a retirada de direitos fundamentais em nome de uma suposta luta contra o crime organizado. A ocupação militar poderá se estender a outras cidades, em situações semelhantes à do Rio. Além disso, existe uma ala mais conservadora que é a favor da intervenção militar sob a justificativa de falência das instituições, no qual suscita o seguinte questionamento: teremos eleições este ano? O tempo das conversas jogadas fora e das discussões superficiais parecem estar no fim.

Rafael Carapajó/Jornalista e advogado.

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