CRÔNICA POLÍTICA- POR RAFAEL CARAPAJÓ

Charge: Altamiro Borges – blogger

  Novamente, o Deputado Federal Jair Bolsonaro voltou a ocupar as manchetes dos principais jornais e telejornais do país, envolvendo-se em mais uma estarrecedora polêmica, desta vez envolvendo a comunidade judaica.

   As posições radicais do deputado são amplamente conhecidas. Entretanto, ocupar o púlpito do Clube Hebraica, na zona sul do Rio de Janeiro para fazer declarações racistas, preconceituosas e, ainda assim, obter aplausos da platéia é, no mínimo, intrigante. 

    O Clube Judaico de São Paulo já havia se manifestado no sentido de cancelar a palestra do Deputado por pressão de seus integrantes. Segundo o presidente da Hebraica, Avi Gelberg, “Ele representa a extrema direita brasileira e em todas oportunidades em que lhe é permitido falar, explora e ataca as minorias entre as quais, nós judeus, nos encontramos. Ainda foi contundente e direto quando firmou que “Ele é homofóbico, misógino, racista e antissemita por natureza e convicção. Idolatra a extrema direita neonazista e admira os torturadores da ditadura militar, a qual enaltece em todas as oportunidades.”

Charge: Los Angeles Independent Media Center

    Contudo, o ocorrido no Rio de Janeiro parece ter ultrapassado todos os limites do exercício da liberdade de expressão. Desta vez os ataques foram para indígenas e quilombolas (descendentes de escravos), prometendo que, caso seja eleito para Presidência da República, vai extinguir todas as demarcações de terras dessas comunidades, vociferando nos seguintes termos: “Pode ter certeza de que, se eu chegar lá, não vai ter dinheiro pra ONG (..). Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola. Onde tem uma terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela. Temos que mudar isso daí”.

   Certamente que a suposta simpatia de alguns integrantes da plateia não refletem o pensamento da comunidade judaica carioca, devendo ser destacado ainda a presença de um grupo de manifestantes, do lado de fora do clube, contrários às concepções do palestrante.

     Este perigoso episódio parece estar inserido em um contexto um pouco maior, qual seja, a última pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), revelando que o deputado possui intenções de voto capazes de colocá-lo no páreo para disputa das eleições presidenciais em 2018.

      A gravidade destes acontecimentos remete a uma reflexão acerca dos trágicos episódios ocorridos durante a República de Weimar, estabelecida na Alemanha após a primeira Guerra Mundial em 1919 e extinta com a ascensão do Nazismo, em 1933. 

       Os alemães nunca haviam tido um Presidente da República, haja vista que o Kaiser Guilherme II, equivalente a imperador, abdicou do cargo no final da Primeira Guerra Mundial. Quando ficou evidenciado que a Grande Guerra estava perdida, o Comando Supremo do Exército forçou a constituição de um governo civil no escopo de facilitar as negociações de paz com as nações vencedoras.

    Porém, o presidencialismo de coalizão não foi suficiente para manter a estabilidade do regime, visto que os diversos partidos estavam constantemente polemizando em torno de ideias e ofensas, solapando um governo fraco e destituído de consenso.

   Anteriormente, a política havia se alastrado contundentemente, inclusive no cotidiano, na vida privada, pelos quais eram exigidos rótulos como forma de inserção. Católicos, protestantes, socialistas, nacionalistas entre outras, eram denominações que excediam a esfera dos partidos políticos e estavam presentes nos clubes de ginásticas, nos pubs, em eventos artísticos, escolas ou jornais.

   Entretanto, com o advento da República de Weimar, a política ficou para um segundo plano com a chegada do “lazer comercial de massa”, da imprensa sensacionalista, preocupada com fofocas e escândalos, dos “romances baratos” e “salões de baile”, viabilizando um maior distanciamento dos jovens da vida política. Além disso, os antigos políticos eram extremamente intransigentes, apegados as próprias ideias, incapazes de realizar uma composição com outros partidos, facilitando assim o crescimento da extrema direita.

     O fato é que as três grandes lideranças políticas que detinham a maioria da Assembleia Nacional falharam em sua missão de manter a República intacta, permitindo que a legitimidade do governo fosse constantemente abalada pelos radicais de esquerda e da direita.

    Diante do vazio deste caos político, o fantasma do comunismo continuava rondando, na esperança de que o capitalismo colapsasse e a república burguesa fosse substituída por um Estado nos moldes da União Soviética. Houve até conflitos entre soldados e trabalhadores alemães, nos quais vários lideres foram presos e executados.

    Além disso, um tratado de paz assinado com as forças aliadas dificultava o desenvolvimento econômico cujo conteúdo previa o pagamento de reparações de guerra e restrições na indústria. A economia desse período foi caracterizada pela inflação em alta e o crescente aumento no número de desempregados, tendo se agravado com a queda da bolsa de valores em Nova York e a crise mundial de 1929, permitindo que a miséria se instalasse no país.

    O colapso das instituições políticas possibilitou a abertura do abismo, ou seja, forças políticas ultra-radicais decidem escolher um bode expiatório como inimigo da nação: o povo judeu. Terras e povos caíram sob o domínio dos campos de concentração e dos assassinatos em massa.

   Guardando as devidas proporções, não existe mal algum em relacionar o contexto alemão com a atual conjuntura da República brasileira. As principais forças políticas do país estão profundamente envolvidas em escândalos de corrupção, sem legitimidade para realizar as mudanças necessárias à retomada do crescimento econômico.

      O Governo, por outro lado, extremamente impopular, insiste em adotar medidas para reduzir direitos trabalhistas, corte de gastos com programas sociais e ameaça futura de não pagamento de aposentadorias e pensões. Assiste de camarote ao aprofundamento de uma crise que é considerada uma das maiores da história, vide o dramático aumento no desemprego, fechamento de lojas, endividamento das famílias, juros extorsivos e recessão.

   Diante deste quadro tormentoso, é possível surgir um novo “boêmio” de cervejaria, com concepções amplamente conhecidas, tais como a xenofobia, o anti-semitismo, racismo, homofobia, misoginia e tantas outras típicas da chamada “extrema-direita”.

        Pelo exposto, vale a pena fazer algumas provocações. Os partidos políticos  serão capazes de compor forças para derrotar o extremismo? Será que a sociedade está disposta a votar no ilustre Deputado para impedir que um certo partido volte ao poder?       Ficam no ar essas perguntas face à advertência de Hannah Arendt de que “As soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda dos regimes totalitários sob forma de forte tentação que surgirá sempre que pareça impossível aliviar a miséria política, social e econômica de um modo indigno do homem”, extraída da obra “As Origens do Totalitarismo”.

Rafaeal Carapajó/Jornalista e Advogado

 

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