CRÔNICA POLÍTICA- POR RAFAEL CARAPAJÓ

Síria 02 A Guerra na Síria

O mundo ficou estarrecido diante da primeira ação militar dos Estados Unidos na gestão do Presidente Donald Trump. Foram utilizados 59 mísseis de cruzeiro Tomahawk, lançados de navios de guerra no Mediterrâneo, tendo como alvo a base aérea na província de Homs, no norte da Síria.

  A manobra militar foi justificada sob o argumento de que, daquele local, teria partido um ataque com armas químicas que deixou vítimas fatais, inclusive crianças, constituindo assim uma represália contra o regime de Bashar al-Assad.

 Contudo, como nos tempos da Guerra Fria, existe uma guerra midiática em curso, em que cada superpotência e seus respectivos aliados, insistem em culpar um dos lados, contribuindo para complicar o entendimento das reais intenções do conflito.

  Conforme demonstram os documentos vazados pelo site WikiLeaks, a queda de Al-Assad, Presidente da Síria, já estava na agenda de Washington desde antes da Primavera Árabe.

  É incontestável que os recentes acontecimentos envolvendo a guerra na Síria têm uma origem comum, ou seja, retroagem para os atentados terroristas contra as torres gêmeas do WTC em Setembro de 2001. Visando fornecer justificativas para perpetrar a invasão do Iraque, chamada de Segunda Guerra do Golfo, os governos norte-americano e britânico acusaram o Presidente Saddam Hussein de possuir armas de destruição em massa (químicas e biológicas), ameaçando a segurança internacional.

  Além disso, era necessário destituir o ditador pelo fato de possuir ligações com a Al-Qaeda, organização terrorista formada por fundamentalistas islâmicos que tinha por propósito expulsar os russos do Afeganistão, recebendo ajuda financeira para compra de armas e realização de treinamentos. O líder dessa organização era Osama Bin Laden, que mudou de opinião quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 1990, cujo conflito foi chamado de a primeira Guerra do Golfo (1990-1991). Desta vez, o terrorista resolveu trocar o Afeganistão pelo Iraque e parte da Síria.

  Entretanto, desde o fim da Segunda Guerra do Golfo (2003-2011), com a retirada das tropas americanas do território iraquiano, foi constatado que a política externa dos Estados Unidos criou no Oriente Médio um paraíso seguro para os radicais islâmicos, uma vez que o país ficou devastado, com muitas mortes e milhares de refugiados. A intenção era derrubar o velho regime e criar um novo Iraque com a participação das três mais importantes comunidades religiosas. Mas o fracasso tomou conta da região, e curdos, xiitas e sunitas continuaram a se enfrentar como nunca.

  Do caos e dos escombros da guerra surge o “Estado Islâmico” ou ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria, na sigla emSíria inglês), uma organização terrorista que tem utilizado as redes sociais para divulgar vídeos e imagens exibindo punições e torturas brutais. A estratégia do grupo é semelhante a “uma serpente que se move entre as pedras”, utilizando tropas de assalto quando os alvos são fáceis ao mesmo tempo em que evita confrontos prolongados quando a derrota é iminente. São possuidores de uma estrutura capaz de produzir grandes recursos financeiros, atuando como uma espécie de multinacional da violência, utilizando combatentes eficazmente treinados.

   Um dos objetivos do Estado Islâmico é estabelecer um Califado no Oriente Médio nos moldes do que existiu no século VII. Sua expansão já atingiu um território equivalente à Jordânia mediante a incorporação de partes significativas do Iraque e da Síria.

   A situação voltou a piorar quando a Primavera Árabe chegou na Síria em 2011, trazendo uma onda de protestos, exigindo a saída do Presidente Bashar al-Assad em razão dos altos índices de desemprego, corrupção em alta escala, falta de liberdade e repressão violenta contra os manifestantes. A medida que os levantes explodiam em várias partes do país, o governo respondia com mais violência, provocando uma reação agressiva do movimento oposicionista, chamada de “Aliança Rebelde”, que começou a combater efetivamente as tropas do Governo.

   Entretanto, existem autores coadjuvantes interferindo no conflito através da chamada ” Guerra por Procuração”. Na época da Guerra Fria, só existia a opção por uma das duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética. Atualmente existe uma conjuntura multipolar, ou seja, vários são os patrocinadores bélicos. A Aliança Rebelde recebe dinheiro, equipamentos e treinamentos dos Estados Unidos, Arábia Saudita e Kuwait, enquanto que o ditador Sírio recebe ajuda parecida da Rússia e Irã.

  O conflito ganha maior repercussão quando passa a ter a interferência do Estado Islâmico, passando a combater tanto as tropas de Assad quanto as facções rebeldes. Muitos dos integrantes da Aliança rebelde são cooptados pelo Estado Islâmico, juntamente com boa parte das armas letais. Foi um verdadeiro fiasco o programa do Presidente Obama em treinar e repassar equipamentos para as tropas que enfrentavam Al-Assad.

  Em 2014, os EUA resolveram interferir no conflito, juntamente com o Reino Unido e a França, realizando bombardeios aéreos no país, evitando atacar as forças do governo sírio. Depois, em 2015, foi a vez da Rússia, aliado de Assad, lançar uma campanha aérea com o fim de ajudar o governo sírio após uma série de derrotas  da oposição.

   Assim, a guerra civil desencadeou uma catástrofe humanitária, com mais de 400 mil mortos e 5 milhões de refugiados sírios. Quando da divulgação dos números a ONU aproveitou para solicitar a comunidade internacional que realize programas de assentamento da população síria em fuga. Lamentavelmente, a União Europeia fez um acordo com a Turquia para impedir a passagem de refugiados do Oriente Médio para o continente.

 É evidente que a solução militar não está dando certo. Os Estados Unidos, tal como na novela de Mary Shelley, desenvolveram uma criatura, uma espécie de monstro por conta da desastrosa política externa para a região. Especialistas e correspondentes de guerra insistem em dizer que o laboratório da CIA ajudou a produzir uma série de organizações terroristas que, juntamente com seus aliados no Oriente Médio, repassaram recursos financeiros e armamentos, até culminar com o surgimento do Estados Islâmico.

  Síria 03 Além disso, ficou constatado que Saddam Hussein não possuía armas de destruição em massa, apesar dos Estados Unidos, com apoio da Inglaterra, terem invadido o Iraque em 2003. A região ficou politicamente desequilibrada, uma vez que a guerra não permaneceu apenas no Iraque, excedendo suas fronteiras e desencadeando uma resistência armada contra a ocupação americana, bem como o conflito entre xiitas e sunitas, favorecendo a influência iraniana.

   Portanto, a primeira ação militar de Donald Trump pode ter como fundamento mais uma mentira. Antes, Al-Assad era um aliado que combatia o terror. Agora, resolveu repentinamente mudar de opinião depois do ataques: “Quando você mata crianças inocentes, bebês inocentes, bebês pequenos (…) isso passa dos limites”.

  Não existe dúvida que a demora em acabar com o conflito tem como justificativa a intervenção das potências regionais e internacionais. O apoio político e militar tem efetivamente prolongado a guerra mediante a intensificação dos enfrentamentos. Bombardeios aéreos são insuficientes para conter o avanço do Estado Islâmico, deixando claro que uma intervenção estrangeira não impedirá a continuidade da desestabilização do local. É impossível prever o futuro. Mas, a manutenção da atual política externa traz em seu bojo um ciclo interminável de guerras em uma era de incertezas que já começou.

Rafael Carapajó- Jornalista e Advogado

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