CRÔNICA POLÍTICA-POR RAFAEL CARAPAJÓ

A Revolução dos bichos e outros codinomes

Animal Farm by damHunterPeck

O trauma ocasionado pela queda de um governo eleito pelo voto popular ainda aterroriza a vida de milhões de pessoas. Forças políticas de extrema envergadura aproveitaram o enfraquecimento político para asfixiar e, finalmente,  apunhalar pelas costas,  retirando da vítima qualquer capacidade de reação.

 Visando atingir seus objetivos, a conspiração resolveu redigir um manifesto que mais parece uma “Tábua para o Futuro”, onde foram prometidas a retomada de crescimento da economia, diminuição do desemprego, abertura de novos mercados no exterior, reorganização do orçamento público e redução de impostos.

 Aqueles que destituíram o governo anterior insistem em afirmar que todo o processo seguiu o rito constitucional, coberto pelo manto da legalidade, em um clima de perfeita estabilidade e amadurecimento das instituições.

  Talvez o futuro não venha perdoar a atual classe política por conta dos últimos acontecimentos. Novos escândalos vão surgindo e envolvendo os líderes dessa suposta conspiração. Alguns dos principais protagonistas tiveram seus codinomes inseridos em planilhas apresentadas por executivos de uma conhecida empreiteira. Uma parte considerável desses nomes foram associados à determinados animais. Será possível relacionar a República com a “Granja do Solar”, nome dado a uma fazenda onde ocorre a chamada “Revolução do Bichos”? Apesar da peculiaridade do contexto original, é cabível a interlocução com o momento presente naquilo que for suficiente para indicar os equívocos de uma política protagonizada por antigos correligionários.

 Os mais incrédulos acreditam que os últimos passos na política representaram uma revolução silenciosa, uma mudança radical nas diretrizes sociais e econômicas sem qualquer oposição, fruto de uma manipulação midiática sem precedentes. Recentemente, esse argumento ganhou mais força a partir das delações de diversos executivos, entre eles, o diretor do departamento da propina, esclarecendo que os apelidos eram usados para que as pessoas do “baixo clero”, responsáveis pelo repasse dos valores, não soubessem para quem o dinheiro era destinado.

 Então, seria possível compor uma versão Tupuniquim da fazenda de George Orwell somente a partir dos nomes encontrados nas planilhas: Abelha, Canário, Caranguejo, Castor, Cobra, Gato, Jacaré, Lagarto, Louro, Novilho, Pavão e Trinca-ferro. Com base nos mesmos depoimentos, foram listados outros curiosos codinomes, tais como: Fodão, Chefe Turco, Esquálido, Dengo, Prosador, Boca Mole, Proximus, Vizinho e Roxinho, somente para citar alguns.

 Boa parte dos listados estiveram profundamente engajados no movimento que culminou com a destituição de um governo genuinamente eleito, acusado e condenado pelo suposto cometimento de irregularidades contábeis ao longo da gestão. Por isso, a abordagem deve permanecer restrita aos defensores da revolução, ou seja, no âmbito daqueles que fomentaram e propiciaram as condições necessárias para o esfacelamento e a derrubada de um governo que chegou ao poder pela via democrática. Os articuladores políticos tomaram o poder na fazenda, expulsando uma dirigente enfraquecida, desarticulada, juntamente com seu partido, sendo declarados como inimigos do povo.

 O ponta-pé inicial desse processo foi dado pelo “Mineirinho” que, apesar de derrotado nas urnas, sempre teve dificuldades em aceitar o resultado, realizando uma oposição ferrenha, insuflando a população para uma espécie de cruzada contra a corrupção, fortalecendo o status de líder da oposição, iniciando as atividades de derrubada de um governo que acabava de começar. Apesar do discurso glorioso, o MPF diz que praticou os crimes de corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro, sendo citado em cinco inquéritos.

 No primeiro inquérito, os executivos da maior empreiteira do país afirmam que recebeu pagamento de vantagens indevidas em seu favor e de aliados políticos. No segundo, houve a suposta promessa e pagamento de vantagens indevidas em troca do apoio para as obras em usinas hidroelétricas. O terceiro foi para investigar o recebimento de “vantagens indevidas” durante campanha eleitoral de 2014. O quarto foi para apurar o repasse supostamente ilegal para a campanha eleitoral de “Dengo”(também investigado), ao governo das Minas Gerais. O quinto inquérito apura esquema para fraudar processos licitatórios, mediante organização de um cartel de empreiteiras.

 Outro aliado revolucionário foi o “Gato Angorá”, sogro de “Botafogo” (também investigado), citado dezenas de vezes em delações dos executivos da empresa. As más línguas dizem que foi promovido de secretário a ministro com o objetivo de  ganhar foro privilegiado e ser julgado apenas pelo STF, tendo em vista a acusação de recebimento de valores para defender os interesses da empreiteira junto ao setor aeroportuário.

 Também participou da conspiração o “Caranguejo”, considerada a peça fundamental no processo de afastamento da Chefe do Poder Executivo, acusado pelos delatores de ter recebido um total de 52 milhões em mesada paga pelas empreiteiras. Especula-se que foi o responsável pela articulação política que tirou a base de sustentação do Governo anterior, através do adiamento de votações, inclusão das chamadas “pautas bombas”, alteração de toda a agenda política do Executivo, bem como as sucessivas derrotas  em projetos de grande importância.

 A revolução silenciosa também teve o apoio do “Vizinho”, citado em 7 delações, nos quais pesam indícios de recebimento de 23 milhões em contas secretas na Suíça para a campanha presidencial de 2010, relacionados às obras do metrô da linha dois.

 Outros codinomes lideram o ranking no recebimento de caixa dois, no qual o executivo da empresa relata o pagamento de até 247 milhões não declarados à Justiça Eleitoral. No topo da lista aparece “Proximus” com 62 milhões, seguido do “Chefe Turco”, com 21,3 milhões, Nervosinho, com 16,1 milhões. A lista é extensa e contempla políticos de todos os partidos, atingindo em cheio Ministros, Senadores, Deputados Federais e Governadores, entre outras autoridades.

 Por isso, a aproximação com a sátira de George Orwell pode ser elucidativa, na medida em que os codinomes, bichos e demais apelidos, lideraram um movimento que abalou a República, sob a égide da ética, da transparência, do efetivo combate a corrupção, da implantação de medidas capazes de tirar o país da crise. Posteriormente, se igualaram aos homens e passaram a adotar as mesmas práticas, não existindo mais nenhuma diferença.

 Aqueles que supostamente “tomaram o poder” estão envolvidos em escândalos de tamanha envergadura, adotando procedimentos piores que seus antecessores, provocando mudanças radicais em relação às políticas públicas. Os paradigmas foram profundamente alterados, antigas conquistas estão sendo perdidas, leis são diariamente modificadas na calada da noite e benefícios são concedidos para as classes privilegiadas. Agora, servidores, aposentados, pensionistas e trabalhadores são vistos como um estorvo e responsáveis pela falência de todo o sistema social.

 As promessas não se confirmaram. O chefe supremo do movimento revolucionário está blindado pelo cargo. Consequentemente, não podem prosseguir as investigações que pesam sobre ele. Os delatores dizem que “MT” foi anfitrião de negociatas que se aproximam de 80 milhões de “pura propina”. O fato é que essa doentia disposição para fazer reformas está fazendo o país regredir para antes da Era Vargas.  Por isso, em vez de optar pela ruptura constitucional, melhor seria aguardar as próximas eleições, permitindo que o processo eleitoral siga seu trâmite até o final, sem surpresas.

Rafael Carapajó- Jornalista e Advogado

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