CRÔNICA POLÍTICA- POR RAFAEL CARAPAJÓ

Meu reino por um cavalo

The American Edition of Boydell's Illustrations of the Dramatic
The American Edition of Boydell’s Illustrations of the Dramatic

A política brasileira vive um dos seus piores momentos. Os últimos acontecimentos parecem ter saído das páginas de Shakespeare, mais notadamente das peças históricas, em que são narrados os desdobramentos políticos da Inglaterra no século XV. Poder-se-ia dizer que qualquer semelhança é mera coincidência mas, uma análise atenta e descompromissada poderá facilitar o intercâmbio de momentos tão distintos.

   A peça é “Ricardo III” e o pano de fundo é a Guerra das Rosas, um conflito entre as casas reais de York e Lancaster, envolvidos em uma luta sangrenta pela conquista do trono de Inglaterra. Curiosamente, a peça desnuda os bastidores da política e a ambição desmedida de Ricardo para chegar ao poder a qualquer custo, não possuindo remorso quando resolve tramar complôs ou eliminar adversários. Demonstra para o público o que um governante ambicioso e inescrupuloso faz para ascender ao poder. O soberano não disfarça suas reais intenções e é muito sincero quando fala de si mesmo:

“(…) Mas eu não fui moldado pra essas gracinhas amorosas, e que não espero os prazeres do amor nem das mocinhas mais devassas, eu que fui construído às pressas por uma natureza descuidada que se esqueceu de me completar; e me lançou no mundo, disforme, mal-acabado, estranho e sem feitio, fico só observando entediado a minha sombra, perplexo com a minha deformidade. E como eu não participo dessas diversões, me dedico a ser o mais canalha dos canalhas.”

    Após o fim da Guerra das Rosas, ergue-se um triunvirato de irmãos da Real Casa de York: Eduardo, Rei de Inglaterra; Jorge e Ricardo. Com a morte de Eduardo, na época doente, Ricardo resolveu tornar-se o Rei da Inglaterra. Entretanto, existia uma linha sucessória que, em tese, deveria ser seguida com a nomeação de Jorge.

  A ambição desmedida de Ricardo o fez resolver a questão com uma machadada na cabeça do irmão, tornando-se assim o Protetor Real dos dois filhos de Eduardo. Resolve separar os meninos da mãe e de sua família, cortando a cabeça daqueles que fizessem visitas e dessem presentes. Depois, manda matar o dois sobrinhos visando assumir o trono do irmão sob o argumento de que eram bastardos. Quando o Ministro Hastings não aceita que assuma o poder no lugar dos meninos resolve decapitá-lo. Também resolve cortar a cabeça do primo e antigo aliado, o Duque de  Buckingham, provavelmente por tê-lo ameaçado e por ter exigido a promessa de receber o condado mais rico do reino.

  Após assumir a coroa, decide se casar com a filha do irmão Eduardo. Mas, para isso, espalha rumores de que sua esposa estaria doente, vindo a morrer logo em seguida. Elisabeth não se deixou enganar pela astúcia de Ricardo, tramando a sua morte e o casamento de sua filha com o exilado Henrique, Conde de Richmond, da casa de Lancaster, maior interessado na derrocada dos York. A disputa pelo poder é resolvida no campo de batalha. Ricardo é mortalmente apunhalado e Henrique assume a coroa, casando-se com Elisabeth e prometendo a paz com a união das Rosas Branca e Vermelha, das casas de York e Lancaster.

   Não pestanejou em assassinar os seus irmãos, sobrinhos e integrantes da alta nobreza. Contudo, permaneceu aos olhos da maioria livre de qualquer suspeita, conquistando a coroa através de meios sórdidos, fazendo o manejo de complôs, mentiras, intrigas e mortes para chegar ao trono da Inglaterra.

  Em vários momentos, mostra-se extremamente manipulador, tendo a assessoria de comparsas para a execução de vários crimes, além do grande poder de persuasão sobre integrantes do mais alto escalão do reino, propiciando a consecução de seus objetivos.

    Para muitos, o poder no Brasil do século XXI foi usurpado por grupos conservadores, oriundos de uma elite dominante, que reluta em aceitar os avanços conquistados na última década, interrompendo abruptamente o mandato de uma presidente eleita mediante uma manobra parlamentar bastante questionável.

   Os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário são divididos entre pessoas diferentes, de forma a proporcionar uma maior pulverização do poder, permitindo que vários setores da sociedade sejam representados de forma fidedigna. Entretanto, as forças políticas que assumiram o poder no Brasil defendem um plano de governo que não foi referendado nas urnas, qual seja, a retomada do antigo projeto neoliberal que estava parado desde a década de 90.

   Mas o vírus que contaminou a Democracia pode ter consequências imprevisíveis. O final da peça de Shakespeare pode estar revestido de um simbolismo alarmante. Durante a noite, apareceram todos os fantasmas mortos por Ricardo, desejando sua derrota e a vitória de Henrique, vindo a acordar desesperadamente. Mas, pelo exposto na narrativa, não há notícia de que tenha mudado de castelo.

   Na última e derradeira batalha, é avisado por um mensageiro que um grande aliado havia se recusado a lutar ao lado do Rei. Quando seu cavalo morre e, estando a pé no combate, procura a garganta de Henrique dizendo: “Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo.” O fato é que não encontrou outro animal por perto. Somente um exército destruído, uma guerra perdida e um rei sem coroa. Será que as cortinas do drama shakespeariano se fecharam por completo ou ainda resta um último ato?

       Rafael Carapajó- Jornalista e Advogado                        

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