Crônica Política- Por Rafael Carapajó

Temer e as barbas do Imperador             

              No dia 15 de Novembro, o Presidente Temer resolveu transferir a sede do Governo para a cidade de Itu no interior do Estado de São Paulo, sob o argumento de ter sido o berço da República, em uma tentativa para melhorar a imagem desgastada pelas denúncias de corrupção, resolvendo associá-la aos ideais republicanos.

            Das duas uma, ou o Presidente desconhece os pormenores da História do Brasil ou então, o episódio é de um cinismo estarrecedor quando associa o momento político ao primeiro golpe da História brasileira, em que militares autodenominados republicanos usurparam a Monarquia, destituindo o Imperador Pedro II e enviando-o para o exílio.

            É fato notório que a Princesa Isabel era comprometida com o ideal abolicionista a ponto de transformar o palácio imperial de Petrópolis numa espécie de quilombo acolhedor de escravos fugidos. Entretanto, com a assinatura da Lei Áurea, a Princesa teria deixado descontentes grande parte dos fazendeiros pelo fato de não terem recebido as indenizações de que se achavam merecedores, já que consideravam como um patrimônio sagrado.  O desconforto e a insatisfação se alastraram pela nobreza e a burguesia agrária.

            Percebendo o enfraquecimento do Governo Central, o Marechal Deodoro da Fonseca, que se dizia amigo do Imperador, resolveu decretar a República em conluio com oficiais positivistas, agindo sem qualquer apoio popular. O golpe havia se consumado e Pedro II, evitando um possível derramamento de sangue, resolveu deixar o país. Logo em seguida, estava instaurada uma ditadura militar onde direitos civis foram suprimidos e instituições representativas da Monarquia foram fechadas, pegando desprevenidos os incautos, indecisos e omissos.

            A ruptura do regime aniquilou a ordem monárquica, destituiu o Imperador, iniciando um período de caça às bruxas, aniquilando os principais focos de movimentos oposicionistas, prendendo e executando os militares leais ao regime. Sobrou até para os escravos recém libertados que passaram a idolatrar a Princesa Isabel, lutando ao lado dos monarquistas, pois temiam que os republicanos paulistas, donos das fazendas de café, pudessem restaurar a escravidão.

            Uma das primeiras medidas de Deodoro da Fonseca foi a assinatura de um decreto (Lei dos suspeitos) que estabeleceu um tribunal de exceção, chamado à época de Comissão Mista Militar, estabelecendo as penas de sedição, promovendo a censura da imprensa e o banimento do Imperador e a sua família. Depois, resolveu dissolver o Parlamento e decretar o estado de sítio. Nessa época, os Estados Unidos queriam criar na América Latina uma área de livre comércio, que não foi aceita pelo Imperador, pois poderia causar prejuízos ao parque manufatureiro. Mas com o golpe, um tratado bilateral foi assinado.

            A tensão política não havia terminado. O sentimento de insatisfação era grande e a ditadura criada por Deodoro da Fonseca foi insuficiente para mantê-lo no poder, sendo derrubado por seu Vice-Presidente, o Marechal Floriano Peixoto, convencendo o antecessor a renunciar, evitando assim uma guerra civil.

            O golpe em cima do golpe trouxe uma forte oposição nos meios militares e políticos e, durante as manobras para frear os descontentes, Floriano Peixoto resolveu banir generais e almirantes para várias prisões. Revoltados com a situação do país, monarquistas e republicanos desiludidos resolveram se rebelar.

            A insurreição chegou a criar um governo provisório em Desterro, na época, capital de Santa Catarina, mas foi debelada mediante uma batalha naval que culminou com o enforcamento e fuzilamento de centenas de militares e milhares de civis. Apesar de ter restaurado a pena de morte, Floriano recusou-se a prestar contas dos atos de extrema violência e barbárie, tendo transferido o poder a um civil, Prudente de Morais.

            Em razão desses fatos estarrecedores, causa estranheza a transferência da sede do Governo, por parte de Michel Temer, para a cidade de Itu, justamente a base inaugural do partido republicano paulista, cujos adeptos defendiam o direito adquirido sobre os escravos e que deveriam ser indenizados quando da libertação destes. Depois que alçaram o poder com a Proclamação da República, permaneceram dominando a política nacional até a Revolução de 30. Parece que os donos dos escravos, como forma de vingança, tornaram-se republicanos logo após libertação dos escravos.

            É possível que o duro golpe contra a Monarquia tenha servido de inspiração para a ruptura da ordem constitucional corrida no ano 2016, no qual a Presidenta Dilma foi afastada do cargo em razão das chamadas “pedaladas fiscais”, ascendendo ao poder um programa de governo que nunca teria vencido nas urnas. A caixa de Pandora foi aberta novamente e com isso, foram libertadas todas as desgraças do mundo.

    Rafael Carapajó- Jornalista e Advogado.

                       

           

           

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