Nelson Rodrigues, Genet e Jorge Amado. Assim começa a “viagem” dos Ciclomáticos Cia de Teatro.

Comemorando vinte anos de carreira os Ciclomáticos apostam no processo multi-artístico dos seu atores.

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“Casa Grande e Senzala — Manifesto Musical Brasileiro”, de Ribamar Ribeiro.

Promover a arte teatral criativa com linguagens diversificadas. Assim é parte da missão dos Ciclomáticos Cia de Teatro. Na bagagem inúmeros prêmios e várias montagens no currículo. Comemorando vinte anos de estrada, a Cia inaugurou, no centro da cidade, no Rio de Janeiro, o mais novo local para os amantes do teatro e aqueles que queiram ingressar no meio teatral.

 Trata-se do Espaço das Artes- espaço que fomenta diversas atividades, dentre elas: a Escola Livre de Teatro, onde ocorrem cursos livres e workshops formativos nas áreas de artes cênicas. Há também apresentações de Espetáculos, Festivais, Leituras Dramatizadas, Performances e Cenas Curtas.

Processo de criação

Mas o sucesso não aparecer por acaso. Revistando autores como Nelson Rodrigues, Jean Genet, Jorge Amado e Federico Garcia Lorca, os Ciclomáticos, criaram uma linguagem própria, apostam na contemporaneidade da encenação, da escrita e do processo multi-artístico dos seus atores.  

“O processo é construído por várias mãos, entre os envolvidos, técnicos, diretores, atores. É sempre um grande prazer”.

Para um dos fundadores da Companhia, Renato Neve, 49, tudo flui de maneira natural.  “Os processos criativos iniciam naturalmente, a partir de uma ideia, que não é necessariamente a ideia do diretor. É uma ideia de alguém da companhia ou algo que nos espire e vai se construindo o que se deseja fazer. Uma vez definido, uma linha um conceito, que característica vai ter o espetáculo, o processo criativo se dá através de improvisações, de jogos, imersões. A gente tem muito essa praia de se enfiar num lugar, ficar trancando por algum tempo, uma semana, dez dias, só fazendo, respirando, trabalhando e construindo um novo espetáculo. É uma das formas que a gente mais usa, nos processos de criativos, os processos de imersão, porque a energia fica mais focada, o índice de dispersão é muito menor, às influências externas: telefone, família, filhos, maridos, esposas, a interferência é muito menor. Então as imersões funcionam muito bem. Mas o processo é construído por várias mãos”. Explica o ator.

Nesse cenário tão conturbado da política do país, com várias manifestações contra o governo interino de Michel Temer que destituiu o Minc (Ministério da Cultura) e acabando com algumas formas de acesso a cultura e educação, artistas chamados de “vagabundos” por políticos das bancadas religiosa e da direita tradicional, atores não ficaram calados. A resposta contra essas arbitrariedades foi à ocupação dos aparelhos de fomento cultural pelo país. No RJ, o Palácio Gustavo Capanema, foi exemplo de luta e resistência por dias. Atores, cantores, produtores se reunirão até ter uma posição da parte do Marcelo Calero, que tomou posso como ministro da Cultura no dia 24 de Maio.

 O fato é que em qualquer época para elite conservadora tupiniquim brasileira, àquela com síndrome de vira-lata, artistas brasileiros nunca conseguiram fazer nada de bom. Em recente ataque, atores foram acusados de usar a Lei de Incentivo Cultural Rouanet para benefício próprio. Mas a realidade está longe disso, quem mais se beneficiou com o incentivo foi a Fundação Roberto Marinho, com de 178 milhões e Instituto como do Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com 14 milhões.  Aliás, os centros culturais de instituições financeiras foram os mais beneficiados pela Lei, desmentindo o que muitos colocaram nas redes sociais.

“Nesse momento loco, político que a gente tá vivendo, os artistas são sim, formadores de opinião, e sobre tudo agora, que são chamados de “vagabundos” que as redes sociais e a elite brasileira vêm apontando o dedo, dizendo que os artistas são mamadores das tetas do governo, na verdade os artistas incomodam porque sempre foram formadores de opinião, sempre estiveram a frente das revoluções da história da humanidade, não só do Brasil, então nem é essa discussão em torno do papel artista, mas o que ele pode influenciar nos rumos políticos e sociais do Brasil. Então, somos sim, fatores importantes, temos que sim, que arregaçar as mangas. É importante tudo que se vem fazendo Brasil a fora pelos rumos políticos que se vem desenhando no nosso país”. Esclarece o ator.

CASA GRANDE E SENZLA

“Casa Grande e Senzala — Manifesto Musical Brasileiro”, de Ribamar Ribeiro.

No espetáculo Casa Grande Senzala – Manifesto Musical Brasileiro, montagem de 2013, obra que passeia pelo texto do Escritor Gilberto Freire, conta a ascensão da “Senzala” é mais atual do nunca.  

 “Quando eu era mais novo, moleque, eu sempre ficava pensado: puxa daqui uns vinte anos, daqui a um tempo, o mundo vai ser melhor, né. As pessoas vão ser mais livres, vão viver mais suas vidas ao invés da vida dos outros, o ser humano vai ser menos preconceituoso e, quando passa esse tempo e eu vejo que há um grande retrocesso e percebo isso muito mais no Brasil do que no mundo, entende? Então. O Casa Grande-Senzala foi uma praia que não tínhamos muito interesse, no entanto descobre-se que é possível, sim fazer um musical com cara de Brasil e que pudesse falar diretamente com público brasileiro. E a grande surpresa é saber o quanto o texto que ele falava de verdade para o momento que a gente está vivendo, o quanto é carregado de ranço essa relação da sociedade com opressão que foi sofrida pelo negro ao logo de quinhentos anos dentro do Brasil. Então, é legal sim, falar de casa Grande Senzala. E, se isso puder levantar discussões sobre as questões de cotas é maravilhoso e da relação “Casa Grande e Senzala” algo que estamos ouvindo muito, porque nos últimos anos de fato a “tal senzala” se emponderou, sim. E isso é motivo de orgulho pra mim, não só para companhia. Então, é muito importante a gente falar sobre isso hoje, dar uma cutucada na sociedade de que esses problemas são verdadeiros e atuais. E que o Brasil avançou muito e agora retrocede culturalmente, socialmente na cabeça de algumas pessoas. O que  é muito triste. Lamentou o Gestor da Companhia.

marlonpablo@basedenoticias.com.br

 

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