Por Rafael Carapajó: Ela é dona jogo, também é dona da bola!

A bola da vez 

Desde a semana passada as principais emissoras de televisão têm veiculado timidamente notícias sobre um processo que tramita perante a Justiça norte-americana, no qual a Rede Globo é acusada de ter efetuado pagamento de propina para obter direitos de transmissão de campeonatos de futebol. Segundo a delação premiada de um empresário argentino, a Globo teria destinado dinheiro à executivos da CBF e da CONMEBOL, responsáveis por campeonatos como a Libertadores e a Copa América. Para muitos, a notícia era a constatação do óbvio e evidente, mas que precisou de uma investigação internacional para vir a público.

            Não há dúvidas de que esta parceria sempre foi estranha. Quem nunca se perguntou sobre a razão da Rede Globo ter exclusividade na transmissão dos principais campeonatos, nacionais e internacionais, por tanto tempo? A TV aberta transmite poucos jogos e quem quiser assistir a outros deverá ser assinante e adquirir pacotes especiais, com direito à mesa redonda e análises exclusivas. É indiscutível que o futebol é a “menina dos olhos”da emissora.

            O fantasma da censura está a rondar novamente e toda cautela é bem vinda nestas horas. Mas, talvez estes fatos sejam apenas a ponta de um Iceberg. Muitos atribuem à emissora a bagunça institucional  e a crise dela resultante.

            O noticiário televisivo insiste no discurso de que a corrupção está em todas as instituições , menos na própria emissora. Apontando em outra direção, a Operação Lava Jato trouxe à tona a delação premiada do executivo Emílio Odebrecht, declarando textualmente que:

O que me entristece, e aí eu digo da própria imprensa, que a imprensa toda sabia, que o que efetivamente acontecia era isso. Por que agora é que tão fazendo tudo isso? Por que não fizeram isso há dez, quinze, vinte anos atrás? Porque tudo isso é feito há trinta anos... Por exemplo, na queda dos monopólios, nós ajudamos a quebra dos monopólios, inclusive sobre a parte de telecomunicações, nós chegamos a montar uma sociedade privada com três ou quatro empresas…uma delas era até a Globo...para criar um embasamento acerca do que estava acontecendo no mundo…para que isso facilitasse aquilo que era decisão de governo, de quebra de monopólio das telecomunicações, da parte do petróleo, e outras coisas…

            O empresário expõe o interesse do governo em quebrar o monopólio e privatizar os setores da telefonia, petróleo e outros, como de fato ocorreu nos anos noventa, com as telecomunicações, informações essas que não sensibilizaram os procuradores da Lava Jato. Mas, se os fatos ocorreram da forma com que estão sendo narrados, vale a pena perguntar como teria surgido todo esse poder?

            Os pesquisadores costumam retroceder para meados do século XX, em que os Estados Unidos, no propósito de combater a ameaça comunista, resolveram apoiar vários golpes de Estado, derrubando democracias e instalando ditaduras. Para facilitar as coisas e ocultar as violações de direitos, foi necessária a cumplicidade da imprensa que, quando não obedecia aos novos ditames, era punida com a censura, indo desde o fechamento de jornais e emissoras até a perseguição e morte de jornalistas.

            Mas foi justamente nesse período que alguns veículos sobreviventes tiveram um crescimento exorbitante, passando a operar como uma espécie de porta-voz do governo, defendendo o novo regime, criando assim um império midiático. Prova disso foi o Editorial do jornal O Globo, em setembro de 2013, no qual reconhecia o erro em ter apoiado o golpe de 64, manifestado-se nos seguintes termos:

“Diante de qualquer reportagem ou editorial que lhes desagrade, é frequente que aqueles que se sintam contrariados lembrem que O GLOBO apoiou editorialmente o golpe militar de 1964. A lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História. O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares…”

           Apesar disso, mesmo com a volta da Democracia, ainda esteve envolvida em episódios considerados polêmicos como a suposta fraude na apuração das eleições para beneficiar Moreira Franco em detrimento de Leonel Brizola, o apoio velado da emissora a Fernando Collor de Mello, ofertando-lhe mais tempo em seus telejornais e desfavorecendo o candidato concorrente, beneficiando-o na edição do último debate, justamente o presidente que protagonizou uma das ações mais duras contra os brasileiros: o confisco da poupança. O resultado pretendido com estas manobras não seria o de influenciar ou modificar o resultado das eleições? Não teriam influenciado a opinião pública em 2016, com o afastamento da Presidenta Dilma?

            Durante os anos FHC, apoiou as privatizações e a venda do patrimônio público, apesar do escândalo envolvendo a venda do sistema Telebrás, em episódio que ficou conhecido como a “Privataria Tucana”.

            A possível proximidade com a Lava Jato é também um fato curioso. Vazamentos seletivos, depoimentos de delatores, divulgação ilegal de grampos telefônicos e reportagens especiais ajudaram a atear fogo nas ruas, criando as condições que favoreceram o impeachment de uma Presidenta eleita pelo voto popular. A decorrência disso foi a chegada ao poder de um Presidente suspeito de envolvimento com a corrupção, justamente aquilo que a Lava Jato pretendia combater. Temer é alvo de investigações na Polícia Federal, Ministério Público, em processos que tramitam no STF e Congresso Nacional, sendo o único presidente da História brasileira a ser investigado por atos cometidos no exercício do próprio mandato. Além de todo este desconforto, vários de seus ministros e assessores respondem a inquéritos e denúncias de corrupção, recheadas de provas robustas, tais como áudios, vídeos, malas de dinheiro, impressões digitais, contas não declaradas no exterior, etc.

            Outro fato pouco divulgado na mídia foi um suposto envolvimento da emissora com a sonegação fiscal no pagamento de direitos de transmissão da Copa de 2002 em paraísos fiscais, segundo auditoria da Receita Federal, ocorrência que ainda não foi devidamente comprovada.

            Agora, em mais um novo escândalo, a emissora deve estar atordoada. Desta vez, a Jurisdição para investigar os crimes é dos Estados Unidos, tendo em vista que os pagamentos, em tese, teriam sido realizados através de bancos americanos. Além disso, o governo suíço está colaborando nas investigações, extraditando os acusados para os tribunais americanos.  A emissora se defende afirmando veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina e que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos.

            Certamente que todo este histórico causa perplexidade. A facilidade com que a empresa vem se movimentando ao longo do tempo demonstra que seu poder se consolida como uma espécie de império midiático, assumindo posicionamentos políticos de uma elite conservadora, influenciando cada vez mais a vida política e econômica, seguindo uma trajetória de interesses que podem ser contrários aos perquiridos pela maioria da população.

            Será que a empresa não estaria extrapolando suas funções públicas, atuando como um grande instrumento de manipulação das massas?  Espera-se que os desdobramentos deste escândalo não impliquem no futuro reconhecimento de mais um erro. Só o tempo dirá se são apenas conjecturas.

       Rafael Carapajó/Jornalista e Advogado. 

 

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